Tikkun Global – Jerusalem, Israel
Jeremiah Smilovici
Frequentemente pensamos na fé como algo necessário para cura, milagres, rompimentos ou o poder sobrenatural de Deus se movendo de forma visível. Mas em Lucas 17, Yeshua conecta a fé a algo muito mais pessoal, doloroso e frequentemente negligenciado: o perdão.
Como crente israelense, esse ensinamento não é teórico para mim. Após o horrível ataque de 7 de outubro, quando terroristas do Hamas massacraram, sequestraram e cometeram atos indescritíveis contra meu povo, tive que encarar essa ordem de Yeshua de uma forma muito mais profunda. O perdão já não era uma ideia bíblica agradável; tornou-se um ato doloroso de fé. Em Israel, por causa do Holocausto, há um ditado bem conhecido: “Não perdoaremos e não esqueceremos.” Eu entendo o trauma e o clamor por justiça por trás dessas palavras. Mas, como seguidores de Yeshua, não podemos aceitar totalmente essa afirmação. Nunca devemos esquecer. Mas devemos perdoar.
Yeshua disse a seus discípulos: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe. ” (Lucas 17:3–4). Não é uma ordem fácil. Yeshua está descrevendo pecados repetidos, arrependimento repetido e perdão repetido, até sete vezes em um mesmo dia. A maioria de nós teria dificuldade em perdoar, uma vez que a ferida está recente. Mas Ele não diz: “Perdoe quando se sentir pronto.” Ele diz: “Perdoa-lhe.”
Os discípulos entenderam o peso do que Ele dizia. A resposta deles não foi: “Senhor, dê-nos mais tempo” ou “Senhor, ajuda-nos a nos sentirmos mais confortáveis quanto a isso.” Eles disseram: “Aumenta-nos a nossa fé!” (Lucas 17:5). Essa resposta revela algo que muitos crentes não percebem: o verdadeiro perdão exige fé. Frequentemente separamos o perdão da fé. Falamos da fé como o poder de receber milagres, mas Yeshua nos mostra que a fé também é a força para obedecer quando essa obediência é dolorosa. Perdoar não é apenas esperar até que nossos sentimentos finalmente concordem. É um ato de confiança. É escolher liberar a ofensa nas mãos de Deus porque acreditamos que Ele é justo, Ele vê, Ele sabe e julgará corretamente.
Isso não significa que negamos o mal. Isso não significa que coadunamos com o terrorismo. Isso não significa que Israel não deva se defender ou que assassinos não devam ser levados à justiça. O perdão bíblico não é o cancelamento da justiça; é a rendição da vingança. Lembrar faz parte da justiça. Perdoar faz parte da obediência. Tive que aprender a perdoar, não porque o mal fosse pequeno, mas porque o mandamento de Yeshua é maior que minha dor. Eu precisava perdoar, não em vez de buscar justiça, mas para que a justiça permanecesse nas mãos de Deus e não se tornasse ódio nas minhas.
Perdoar é acreditar que Deus pode carregar o que eu não posso carregar. Perdoar é acreditar que a justiça de Deus é melhor do que minha vingança. Perdoar é acreditar que libertar alguém do meu domínio não significa que ele está livre da verdade de Deus. Significa que confio no Pai para cuidar do que foi feito. Em nossa própria força, muitas vezes queremos nos proteger retendo o perdão. A amargura pode parecer controle. A ofensa pode parecer justiça. Mas a fé diz: “Deus não esqueceu. Deus vê mais claramente do que eu. Posso confiar em Deus para isso.”
É por isso que o Pai Nosso é tão sério. Yeshua nos ensinou a orar: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos os nossos devedores” (Mateus 6:12). Isso faz parte da vida diária de um discípulo. Todos os dias vamos diante do Pai precisando de misericórdia, e todos os dias somos chamados a liberar misericórdia dos outros. Se oramos por perdão enquanto nos apegamos à amargura e à ofensa, há uma contradição em nossa caminhada com Deus.
O próprio Yeshua nos mostrou a plenitude dessa fé na cruz. Enquanto sofria injustamente, ele orou: “Pai, perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Isso não era fraqueza. Isso não era negação. Essa era a fé em sua forma mais pura. Pedro explica assim: “pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2:23). Esse é o fundamento do perdão: Ele se confiou àquele que julga com justiça.
Perdoar exige grande fé, porque perdoar exige rendição. Não é natural. Não é fácil. Mas é o caminho de Yeshua. A boa notícia é que Deus não nos ordena perdoar pela nossa própria força. Sua fé se torna nossa força e Sua misericórdia para conosco torna-se fonte de misericórdia através de nós.
Então talvez a oração dos discípulos deva se tornar nossa também: “Senhor, aumenta nossa fé.” Não apenas fé para ver milagres. Não apenas fé para mover montanhas. Mas fé para perdoar, liberar e andar livre.