Andrew Murray (1828-1917)
“Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra” (Mt 28.18).
“Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6.10).
“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza…” (2 Co 12.9).
Não há verdade mais amplamente reconhecida entre cristãos sinceros do que a de sua total fraqueza. Não há verdade mais frequentemente incompreendida e distorcida. Aqui, como em outras passagens, os pensamentos de Deus estão astronomicamente acima dos pensamentos do homem.
Muitas vezes o cristão tenta esquecer sua fraqueza; Deus quer que dela nos lembremos, que a sintamos profundamente. O cristão quer vencê-la e se livrar dela; Deus quer que descansemos e até nos alegremos nela. O cristão lamenta sua fraqueza; Cristo ensina seu servo a dizer: “Tenho prazer nas enfermidades, com alegria me gloriarei nas minhas enfermidades”. O cristão pensa que sua fraqueza é o maior obstáculo em sua vida e no servir a Deus; Deus nos diz que esse é o segredo de força e sucesso. É nossa fraqueza, aceita com sinceridade e continuamente assimilada, que nos permite reivindicar e ter acesso à força daquele que disse: “O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Quando nosso Senhor estava prestes a assumir seu lugar no trono, uma de suas últimas palavras foi: “Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra”. Assim como o fato de ele tomar seu lugar à mão direita do poder de Deus foi algo novo e verdadeiro, ser revestido com todo poder também o foi. A onipotência foi confiada ao homem Cristo Jesus, para que, a partir de então, pelos canais da natureza humana ele pudesse manifestar sua tremenda energia. Por isso, ele vinculou a revelação daquilo que receberia à promessa da participação que seus discípulos teriam nessa manifestação de poder: “Quando eu ascender ao céu, do alto vocês receberão poder (Lc 24.49; At 1.8). É no poder do onipotente Salvador que o crente pode encontrar sua força para viver e para servir.
Os discípulos recebem poder
Foi exatamente assim que aconteceu com os discípulos. Durante dez dias, adoraram e esperaram diante do trono do Senhor. Eles expressaram sua fé nele como seu Salvador, sua adoração a ele como seu Senhor, seu amor por ele como o Amigo, sua devoção e prontidão para servi-lo como seu Mestre. Jesus Cristo era o único objeto do pensamento, amor e deleite de seus discípulos. Em tal espírito de adoração por meio de fé e devoção, suas almas cresceram na mais intensa comunhão com Cristo no trono e, quando estavam preparados, receberam o batismo do poder. Havia poder dentro deles e ao seu redor.
O poder foi concedido para qualificá-los para a missão à qual eles se entregaram – a de testemunhar de seu Senhor invisível por meio de suas vidas e palavras. Para alguns, o principal testemunho foi viver uma vida de santidade, revelando o céu e o Cristo que de lá viera. O poder veio para estabelecer neles o reino, para lhes dar vitória sobre o pecado e sobre a velha natureza, para capacitá-los a testificar com sua vida do poder de Jesus no trono, para fazer com que homens vivessem no mundo em santidade. A outros, caberia dedicar sua vida inteiramente a falar no nome de Jesus. Mas todos precisavam – e receberam – o dom de poder, para provar que Jesus já recebera o reino do Pai, que toda autoridade sobre os céus e a terra realmente lhe fora entregue e que o Senhor concedera a seu povo apenas o que eles precisavam, tanto para uma vida santa quanto para eficiência na obra.
Eles receberam o dom de poder para provar ao mundo que o reino de Deus, ao qual eles professavam pertencer, não fora dado em palavras, mas em poder. Por receberem esse poder para habitar neles, o mesmo poder os cercava. O poder de Deus era sentido até por aqueles que ainda não haviam se entregado a ele (At 2.43; 4.13; 5.13).
O poder de Cristo em nós
E o que Jesus significava para os primeiros discípulos ele significa igualmente para nós. Nossa vida e nosso chamado como discípulos têm sua origem e garantia nas seguintes palavras: “Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra”. O que Jesus faz em nós e por meio de nós, ele o faz com seu imenso poder. O que ele pede ou ordena, ele mesmo realiza pelo mesmo poder. Tudo o que ele dá é concedido com poder. Cada bênção concedida, cada promessa cumprida, cada graça oferecida – em tudo isso está embutido o seu poder. Tudo o que procede do Jesus que está assentado no trono de poder leva o selo de poder.
O crente mais enfraquecido pode ter a certeza de que, ao pedir para ser liberto do pecado, para crescer em santidade, para produzir muito fruto, ele pode confiar que essas petições serão atendidas com poder divino. O poder está em Jesus; Jesus se doou a nós com toda sua plenitude; é em nós, membros de seu corpo, que seu poder vai operar e se manifestar.
A vida de Cristo em nós
E, se quisermos conhecer como o poder é conferido, a resposta é simples: Cristo nos concede seu poder ao se doar para viver em nós. Diferentemente do que muitos imaginam, ele não toma a vida debilitada que encontra em nós e nos confere um pouco de força para ajudar-nos em nossos frágeis esforços. Não. É quando disponibiliza sua própria vida para nós que ele nos dá de seu poder. O Espírito Santo desceu sobre os discípulos direto do coração de seu exaltado Senhor, trazendo para seu interior a gloriosa vida celestial que Jesus acabara de herdar.
E, nesse mesmo caminho, seu povo ainda é instruído a se fortalecer no Senhor e na força do seu poder. Quando ele os fortalece, não é por ter removido a percepção de fraqueza deixando em seu lugar um sentimento de força. De modo algum. Ao contrário, de uma maneira maravilhosa, ele mantém, e até amplia, a sensação de absoluta impotência, tornando-os conscientes da força que há nele.
“Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que o poder extraordinário seja de Deus e não nosso” (2 Co 4.7). A fraqueza e a força coexistem lado a lado; quando uma cresce, a outra igualmente cresce, até que compreendam e digam: “…me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Co 12.9-10).
O verdadeiro discípulo aprende a olhar para Cristo no trono, o Cristo onipotente, como sua fonte exclusiva de vida. Ele contempla a vida do Cristo exaltado em sua infinita perfeição e pureza, em sua força e glória – a vida eterna que habita em um homem glorificado. E, ao refletir sobre sua própria vida interior, ele anseia por santidade, a fim de viver de modo que agrade a Deus, e por poder para fazer a obra do Pai; ele olha para cima e, jubilante por Cristo ser sua vida, ele confiantemente reconhece que aquela vida vai operar de forma poderosa nele, para realizar tudo o que for necessário.
Em coisas grandes e pequenas, aprendendo a olhar para Jesus e depender dele para ser guardado de pecar a cada momento, como também enfrentando alguma dificuldade ou tentação maior, o poder de Cristo é sempre a sua expectativa e esperança. Ele vive uma vida exultante e abençoada, não por não ter mais fraquezas, mas porque, sendo absolutamente impotente diante delas, consente e espera que o poderoso Salvador nele opere.
Lições importantes
As lições que esses pensamentos nos ensinam para a vida prática são simples, mas muito preciosas. A primeira é que toda nossa força está em Cristo, armazenada e esperando para ser usada. Está ali como uma vida totalmente suficiente, sua vida em nós, pronta para fluir caso encontre passagem. Seja o fluir da vida forte ou fraco, de acordo com a nossa capacidade de recebê-la, o reservatório completo está presente em Cristo: todo poder no céu e na terra.
Prestemos toda atenção a esse assunto. Vamos ocupar nossa mente com esse pensamento: que Jesus seja de fato nosso perfeito Salvador, pois o Pai já lhe deu toda autoridade. Essa é a qualificação que o torna perfeito para nossas necessidades: todo o poder do céu acima de toda potestade da terra, acima de cada autoridade da terra, e também em nosso coração e vida.
A segunda lição é que esse poder flui até nós se permanecermos em estreita união com Deus. Quando a união é fraca, pouco valorizada ou cultivada, o poder não encontrará força para nos alcançar. Quando a união com Cristo é celebrada como nosso mais precioso bem e sacrificamos tudo para mantê-la, ela encontra força para fluir, “pois o seu poder se aperfeiçoa na nossa fraqueza”. Nossa única preocupação deverá ser permanecer em Cristo, nossa força. Nosso dever é ser forte no Senhor, e na força de seu poder.
Que nossa fé alcance amplo e claro entendimento da excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem, poder do ressurreto e exaltado Cristo por meio do qual ele triunfou sobre todos os inimigos (Ef 1.19-21). Que nossa fé esteja alinhada com a mais maravilhosa e bendita combinação da parte de Deus: de nossa parte, nada além de fraqueza; todo o poder em Cristo, mas ao nosso alcance, como se estivesse em nós.
Que nossa fé deixe diariamente o “eu” e a vida natural em troca da vida de Cristo, colocando todo o nosso ser à disposição de Deus para operar em nós. Que nossa fé, acima de tudo, se regozije confiantemente na certeza de que ele, de fato, aperfeiçoará sua obra em nós com todo seu infinito poder.
E, permanecendo nós em Cristo, o Espírito Santo, o Espírito de seu poder, irá operar poderosamente em nós, e cantaremos: “O SENHOR é minha força e meu cântico” (Sl 118.14); “De mim se dirá: A justiça e a força estão somente no SENHOR” (Is 45.24); “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fp 4.13).
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