Charles H. Spurgeon (1834–1892)
“O mistério que esteve oculto durante séculos e gerações, mas que agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus, entre os gentios, quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério, a saber, Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.26-27).
O Evangelho é o grandioso segredo, o mistério dos mistérios. As riquezas da glória desse mistério podem ser contempladas aqui, estão à vista de todos – “Cristo em vós, a esperança da glória”.
O centro do bendito mistério do Evangelho é Cristo em sua própria pessoa. Que conceito maravilhoso pensar que o Deus infinito tomaria para si a natureza de homem. Jamais teria ocorrido ao homem que Deus pudesse conceber esse ato de condescendência. Mesmo já sendo um fato consumado, continua a ser um grande mistério da nossa fé. Deus e homem numa só pessoa é algo que causa imensa admiração da parte dos céus, da terra – e do inferno. Com muita propriedade Davi exclamou: “Que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites” (Sl 8.4).
A encarnação de Cristo
O primeiro conceito da encarnação nasceu na insondável mente de Deus. Era preciso onisciência onipotente para sugerir a ideia de “Emanuel, Deus conosco”. Reflita nisso! O Infinito se fez infante, o Ancião de Dias, uma criança, o Bendito Eternamente, um homem de dores e que sabe o que é padecer! A ideia é original, assustadora e divina. Ah, como é incrível que a combinação das duas naturezas tenha um dia se tornado realidade!
Caro leitor, o coração do Evangelho bate forte por meio dessa verdade. O Filho do Altíssimo nasceu em Belém e, na ocasião de seu nascimento, antes que ele tivesse realizado qualquer feito de justiça ou derramado uma gota de sangue, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele ama” (Lc 2.14), pois sabiam que a Encarnação trazia em si uma riqueza de boas dádivas para a humanidade. O ato de o próprio Senhor ter assumido nossa humanidade significa uma dádiva inimaginável para a raça humana. “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi concedido…” (Is 9.6), e naquele Menino e Filho encontramos nossa salvação. O fato de Deus ter assumido nossa natureza humana só pode significar o mais puro júbilo. Certamente a existência da união entre Deus e o homem é o deleite de cada mente regenerada.
A gloriosa obra de Cristo
Quando pensamos em nosso Senhor, a pessoa dele nos faz lembrar da gloriosa obra que ele assumiu e concluiu em nosso favor. Na forma de homem, humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de Cruz. Ele assumiu a forma de servo e se tornou em semelhança da carne corrompida porque nós falhamos em nossa missão e não poderíamos ser salvos a não ser que outro assumisse o compromisso e servisse em nosso lugar. O Herdeiro de todas as coisas se cingiu para estar entre nós como servo. E que marcante foi seu servir! Que árduo! Que humilde! Que pesado! Que desgastante! Viveu uma vida de aflição e humilhação, seguida por uma morte de agonia e desprezo. Carregou todo o nosso fardo até a Cruz e, na Cruz, ofereceu sua própria vida para nos reconciliar com o Pai.
Ah, tem alguma coisa que Cristo não fez por nós? Ele lançou nossos pecados nas profundezas do oceano. Bebeu do cálice que nós teríamos que beber eternamente, deixando aquele cálice vazio e seco, sem qualquer resíduo. Ele nos redimiu da maldição da lei ao se fazer maldito por nós. Ele acabou com as transgressões, deu fim ao pecado, proporcionou justiça eterna e subiu para se assentar no trono junto a seu Pai além do véu. Com sua divina oferta, tornou tudo certo e seguro para nós, para que pudéssemos então segui-lo e estar com ele onde ele estiver.
Ah, sim, irmãos, a pessoa de Cristo e a obra concluída são os pilares da nossa esperança. Não consigo imaginar o que ele é, o que ele fez, o que ele está fazendo nem o que ele fará sem dizer: “Ele é minha salvação completa e muito além do que possa desejar”.
Os ofícios de Cristo
Caro leitor, cada um dos OFÍCIOS de nosso Senhor é ser uma fonte de consolo para nós. Ele é Profeta, Sacerdote e Rei? Ele é Amigo? Ele é Irmão? Ele é Marido? Ele é Cabeça? De todas as formas e em todo lugar descansamos o peso da enorme carga da nossa alma sobre ele, pois ele é tudo em todos.
Além disso, existe um doce pensamento: ele é nosso Representante. Você não sabe que desde a antiguidade ele foi o cabeça de nossa aliança com o Pai e nos representou nas grandes transações da eternidade? Sabemos que o primeiro Adão foi o cabeça da raça humana e representou a todos nós – de maneira infeliz, devo admitir, pois na sua queda, todos nós caímos juntos. Agora, o segundo Adão também incluiu em si mesmo todo o seu povo, representou-o e guardou a aliança em seu lugar.
Dessa maneira, tudo ficou acertado, ordenado em todas as coisas e seguro, e cada bênção oriunda desse relacionamento está infalivelmente garantida para toda a descendência. Os crentes possuirão a herança da aliança porque Jesus os representa e, em seu nome, tomou posse do incalculável patrimônio de Deus.
Não importa o que Cristo seja, seu povo está nele. Foram crucificados nele, estão mortos nele, foram sepultados nele, ressuscitaram nele e vivem eternamente nele; nele estão gloriosamente assentados à direita de Deus, que “nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6). Nele, “somos aceitáveis no Amado” (Ef.1.6, King James em português), agora e para sempre.
E digo que essa é a essência de todo o Evangelho. Aquele que prega a Cristo, prega o Evangelho. Aquele que não prega a Cristo, não prega Evangelho algum. A possibilidade de existir um Evangelho sem Cristo é a mesmo de ter um dia sem a claridade do sol ou um rio sem água. Não. Cristo é a vida, a alma, a substância e a essência do mistério do Evangelho de Deus.
O próprio Cristo
O próprio Cristo, digo mais uma vez, e nenhum outro. Vou ainda mais além. Como deve ser o próprio Cristo e nenhum outro, deve ser também, o próprio Cristo em vez de qualquer outra coisa que Cristo possa nos dar. Outro dia eu pensava como Cristo é diferente de todos os amigos e colaboradores que temos. Eles nos trazem coisas boas, mas Jesus nos dá a si mesmo. Ele não nos dá apenas sabedoria, justiça, santidade e redenção, mas ele mesmo se tornou para nós, da parte de Deus, todas essas coisas. Por isso nós jamais conseguiríamos fazer coisa alguma sem ele.
Quanto mais estivermos cheios de Cristo, mais sentiremos nosso vazio natural. Quanto mais o conhecemos, mais queremos conhecê-lo. Quando escreveu a carta aos filipenses, Paulo já tinha sido cristão havia muitos anos; ainda assim disse: “… para conhecer Cristo” (Fp 3.10).
Mas, Paulo, você ainda não conhece Cristo? “Sim”, ele diz, “e não”, pois ele conhecia um pouco o amor de Cristo, mas sentia que esse amor superava todo o conhecimento. “Todos os rios vão para o mar, e mesmo assim o mar nunca se enche” (Ec 1.7). Por um lado, esse não é o nosso caso, mas por outro, todos os rios de graça e amor e bem-aventurança fluem para nosso interior; nossa alma se enche, se satisfaz e, mesmo assim, ansiamos por mais. Não queremos mais de seus dons, Senhor, queremos mais de ti. Tu és o desejo de nosso coração.
A doçura desse mistério, que é Cristo em você
Cristo presente no coração é o que há de mais precioso. É a mesa mais farta de saborosa comida. Cristo a bordo da embarcação traz segurança e serenidade. Cristo em sua casa, Cristo em seu coração, Cristo em você – essa é a cereja do bolo, o mel da colmeia.
Cristo em você – quer dizer, primeiramente, Cristo aceito pela fé. Não é maravilhoso que Cristo Jesus possa entrar no coração do homem? Sim, mas digo algo ainda mais maravilhoso, o fato que ele possa entrar por uma passagem tão estreita como a nossa pequenina fé. Veja o sol; não sei dizer quantas milhares de vezes o sol é maior do que a terra, ainda assim, ele consegue entrar numa pequena sala ou obscura cela! E tem mais: ele consegue entrar por uma fresta. Já observei que, mesmo quando as persianas estão fechadas, o sol consegue passar por pequenos buracos que encontra nelas.
Da mesma forma, Cristo pode entrar no homem por uma pequena fé – uma mera fresta de confiança. Mesmo que sua fé seja tão pobre que você mal consegue sentir segurança ou confiança, ainda assim, se confiar no Senhor, assim como o sol consegue passar por uma minúscula passagem, Cristo irá entrar em sua alma pela menor abertura de uma fé verdadeira. Será muito sábio de sua parte, ao ver a radiante face do Senhor brilhar pelas fendas, dizer: “Não estou satisfeito apenas com pequenas centelhas e vislumbres, quero andar contente e satisfeito à luz de seu semblante. Abra as cortinas. Que entre o brilho do sol celestial e me alegrarei na sua glória”.
Cresça em fé e amplie sua capacidade de receber até que você receba o Espírito Santo no mais íntimo de sua alma, pois Cristo em você, pela fé, se torna a esperança da glória.
Cristo em você também significa experimentá-lo em todo o seu poder. Existem remédios poderosos que removem a dor do corpo de uma pessoa, que podem curar sua enfermidade, mas não farão efeito algum se não estiverem dentro da pessoa! Quando o medicamento começa a fazer efeito, removendo a dor e fortalecendo o corpo, a própria pessoa percebe que algo está acontecendo e não depende mais do testemunho de outros.
Convide Cristo para estar em você; ao curar seu pecado, ele vai encher sua alma com amor, virtude e santidade, vai envolver seu coração com consolo e acendê-lo com aspirações celestiais – então você conhecerá o Senhor por si mesmo. Creia em Cristo, possua Cristo, vivencie Cristo. Cristo em você – isso vale um mundo inteiro.
Além disso, Cristo em nós significa que Cristo reina. Cristo em você é uma expressão de realeza. Cristo acena seu cetro real do centro de seu ser, sobre todo poder e habilidade, desejo e determinação, levando todo pensamento cativo a Deus – ah, verdadeiramente é o início da glória, e a garantia do céu. Ah, por mais da soberania imperial de Jesus! Nossa liberdade está inteiramente sob seu domínio.
Sim, e Cristo em você significa que Cristo o preenche. É maravilhoso, uma vez que Cristo entra em uma alma, perceber o quanto ele a ocupa por inteiro. Você conhece a lenda do homem cujo jardim produzia apenas ervas daninhas? Um dia ele encontrou uma flor estranha, dona de uma vitalidade singular. Diz a história que ele semeou um punhado dessas sementes em seu jardim abandonado e deixou o crescimento da nova planta aos doces cuidados do próprio jardim.
Os dias passavam sem que o homem conferisse como estava a semente até que, um dia, ele abriu o portão e viu uma imagem que o assombrou. Ele sabia que a semente reproduziria uma flor elegante, e ansiava por ela, mas tinha poucas expectativas de que a planta cobriria todo o jardim. Mas foi o que aconteceu. A flor exterminou todas as ervas daninhas; ele examinou de uma extremidade à outra; dentro dos muros do jardim, não havia nada a não ser as suaves cores daquela planta rara, e não havia outro cheiro a não ser seu delicioso perfume!
Cristo é essa planta renomada. Se ele for semeado no solo da sua alma, ele gradualmente devorará as raízes de todas as sementes danosas e das plantas venenosas, até que a sua natureza humana esteja totalmente tomada pela vida de Cristo. Que Deus nos permita conhecer a realidade dessa imagem em nosso coração!
Pode soar estranho acrescentar que Cristo em você transfigura o homem até ele se tornar como o próprio Cristo. Lance uma barra de ferro fria no fogo e deixe-a ali até que o fogo a envolva por inteiro. Observe que o ferro fica como o próprio fogo – quem o sente, não percebe a diferença. O fogo permeou o ferro e o transformou num artefato ardente.
Eu gostaria de ter visto a sarça do monte Horebe diante da qual Moisés tirou as sandálias. Quando tudo era fogo ardente, não parecia haver arbusto, mas uma massa de fogo, uma fornalha de pura chama. O fogo havia transfigurado a sarça. O mesmo acontece conosco quando Cristo entra em nós. Ele nos eleva a um estado mais nobre, como disse Paulo: “…não sou mais eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim…” (Gl 2.20). Jesus nos santifica por completo: espírito, alma e corpo, e nos leva para habitar com ele num estado de perfeição.
Cristo em você – como eu poderia explicar? Somos o pequeno ramo enxertado, e ele é o tronco forte e cheio de vida. Fomos inseridos nele, conectados a ele, selados nele, e quando não há nada separando o novo broto e a velha árvore, finalmente a seiva flui para o enxerto, e enxerto e árvore se tornam um. Precisamos saber na prática como Cristo entra em nós e se torna a nossa vida.
Cristo em você significa poder em você. Um homem forte armado guarda sua casa até que chegue um ainda mais forte; e quando o mais forte entra, o primeiro morador é expulso pelo poder do recém-chegado e permanece fora por imposição dessa força. Não tínhamos força até Cristo chegar; agora, guerreamos contra principados e potestades, e conquistamos a vitória.
Cristo em você! Ah, que êxtase! Que alegria! O Noivo está conosco, e não podemos mais jejuar. O Rei está conosco, e estamos alegres. Quando o rei Charles foi morar em Newmarket, disseram que aquela vila tão desprovida tornou-se um lugar próspero. Verdadeiramente, quando Cristo vem para habitar em nosso coração, nossa pobreza espiritual de súbito se torna uma riqueza bendita.
Receba sua gloriosa presença
Cristo em você! Que maravilha que ele se digne a habitar sob nosso teto! “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.9, ARA). Veja a honra que a passagem do Senhor traz consigo! Ele glorifica o lugar onde seus pés passam mesmo por um breve momento. Se Jesus entrar em seu coração, sua corte vai com ele: honra e glória, imortalidade e céu, e tudo o mais o seguem por onde ele passar.
“Ah,” alguém pode dizer, “eu gostaria que ele viesse habitar em mim”. Então, seja humilde, pois ele ama habitar com aquele que é humilde e tem um coração contrito (Sl 51.17). Então, purifique-se, pois se os que levam os utensílios de Deus precisam antes se purificar, muito mais aqueles que têm o próprio Cristo na sua vida. Em seguida, esvazie-se, pois Cristo não vive no meio de desordem, orgulho e autossuficiência carnal. Aprenda intensamente a se alegrar em Cristo, pois aquele que recebe Cristo o tem sempre como hóspede.
Jesus nunca permanece onde não é desejado. Se não é mais bem-vindo, ele vai embora. Anseie por ele, deleite-se nele. Tenha fome e sede por ele, pois Cristo tem prazer em habitar com um povo intenso, faminto, um povo que o valoriza e não consegue ser feliz sem ele.
– Condensado do sermão “Christ In You” [Cristo em você]
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