J. Hudson Taylor (1832–1905)
“Era domingo, 25 de junho, uma manhã tranquila de verão à beira-mar. Exausto e muito enfermo, Hudson Taylor tinha ido visitar amigos em Brighton [Inglaterra] e (…) saiu para caminhar sozinho nas areias deixadas pela baixa da maré. À sua volta, o cenário era de paz, mas por dentro ele estava em agonia de espírito. Ele sabia que precisava tomar uma decisão, pois aquele conflito não podia mais continuar.”
Hudson Taylor, agora um homem de trinta e três anos, já somava sete anos de serviço missionário na China. Ele havia se casado com uma jovem que compartilhava de seu amor pelo Senhor e pelo povo chinês. Serviram juntos até que a saúde debilitada de Taylor os forçou, em 1860, a voltar para a Inglaterra, sua terra natal. Ele fora advertido que apenas pensar em voltar para a China já seria uma sentença de morte. Ele se entregou à missão de publicar um hinário para os chineses e a fazer uma revisão do Novo Testamento. Ele também havia decidido concluir seus estudos de medicina. E dedicava diariamente longas horas de intenso estudo.
Enquanto Taylor se dedicava diligentemente a essas tarefas, pendurado no alto da parede havia um mapa da China. Ele sabia que o trabalho missionário na China estava, em grande parte, confinado à região costeira. À medida que estudava diariamente o mapa, aumentava sobre ele o peso dos incontáveis milhões de almas na região interior da China. Além disso, a Palavra de Deus, sua constante companhia, alimentava sua crescente convicção de que algo precisava ser feito por aquelas almas perdidas. E algo aumentava ainda mais esse peso: o fato de que o número de missionários na China estava diminuindo, em vez de aumentar.
Muitas e muitas vezes, o trabalho era deixado de lado quando ele chamava sua esposa e dois colaboradores na obra para orar. Juntos, clamavam a Deus para que enviasse evangelizadores para toda a China. Sociedades missionárias foram contatadas e desafiadas para essa obra. Entretanto, embora fossem simpatizantes da tarefa, sentiam-se impedidas de tomar qualquer atitude diante da dificuldade de levantar recursos financeiros e de encontrar pessoas dispostas a aceitar o chamado.
Imaginar uma multidão de chineses morrendo diariamente sem Cristo tornou-se uma agonia na alma de Hudson Taylor. Ele sabia que Deus estava lhe dizendo que, em resposta às orações, ele enviaria o sustento financeiro e os obreiros. Ainda assim, a ideia de manter uma força missionária no interior inóspito da China, enfrentando as provações de fé que certamente viriam, era avassaladora.
Essa era a dor em sua alma enquanto caminhava na praia naquela tranquila manhã de verão. De repente ocorreu-lhe que, se Deus estava lhe pedindo para fazer aquilo, então a responsabilidade caía sobre o próprio Deus. “Tu, Senhor”, clamou ele com um alívio inexprimível, “é sobre ti que está todo o peso deste encargo! Como teu servo, e sob a tua ordem, eu sigo na obra, mas deixo a responsabilidade de gerar resultados contigo.”
Ele abriu a Bíblia e escreveu: “Orei por vinte e quatro trabalhadores voluntários e competentes em Brighton, 25 de junho de 1865”. Isso significava dois evangelistas para cada uma das províncias não alcançadas do interior da China. Alegria e paz inundaram sua alma. Ele estava abraçando aquilo para o qual Deus o havia chamado!
Os anos de estudo que acabara de concluir provaram ser um treinamento valioso para o que estava por vir. Durante esse tempo, Taylor buscou unicamente no Senhor a provisão para suprir suas necessidades diárias e as de sua família. Ele também havia assumido o sustento de um jovem casal que embarcara para a China para servir ao Senhor. A prova de sua fé era severa, pois às vezes ele se via praticamente sem recursos — mas ele estava aprendendo a confiar totalmente no Senhor.
“Nada é mais marcante nos registros desse período do que a dependência de Taylor da oração — uma dependência genuína para cada detalhe, cada necessidade. Ele entregava todo seu fardo a Deus, clamando pelas promessas… Tudo era levado ao Pai Celestial com a franqueza característica das crianças e com a convicção de que Deus poderia e haveria de cuidar, direcionar e prover. Era tudo tão real, tão prático! Igualmente característica era a fidelidade com que ele obedecia quando o caminho do Senhor se tornava claro…”
Dois dias após sua decisão na praia, ele abriu uma conta bancária em nome da Missão para o Interior da China e fez seu primeiro depósito: dez libras. As coisas começaram a avançar rapidamente, provando que Deus estava dando aquele passo gigantesco juntamente com ele. William Thomas Berger, um empresário experiente e bem-sucedido, tinha um relacionamento próximo com Hudson Taylor e se sentiu profundamente tocado a colaborar com o ministério de Taylor. Ele representaria a missão na Inglaterra. Muitas portas se abriram para que Taylor apresentasse a necessidade dessa missão para a China; e as contribuições para a obra começaram a chegar. A residência dos Taylor tornou-se um lugar bem movimentado à medida que os candidatos chegavam e eram preparados para embarcar no navio rumo à China. A esposa de Taylor, mãe de quatro pequenos, tornou-se também uma mãe para os jovens missionários durante os períodos de preparação.
Mas em meio às reuniões e à intensa atividade, Taylor fazia questão de passar tempo em oração silenciosa e meditação. “Estejam certos disso”, dizia ele, “a obra de Deus feita da maneira de Deus nunca terá falta da provisão de Deus”.
Preparativos
Certo de que Deus o estava conduzindo de volta à China, Taylor começou a fazer os preparativos sem demora. Com a ajuda da esposa, ele preparou um livreto que teria ampla circulação: China’s Spiritual Need and Claims [As Necessidades Espirituais e Clamores da China]. “Cada frase foi imersa em oração”, disse ele. “O texto se desenvolveu à medida que escrevíamos; eu, andando de um lado ao outro na sala; Maria, sentada à mesa”. No livreto, ele destacou o fato de que, nas sete províncias da China onde já havia trabalho missionário, 185 milhões de pessoas ainda não tinham ouvido o Evangelho. Além disso, as onze províncias da China ainda não alcançadas por missionários somavam outros 200 milhões de pessoas sem uma única testemunha de Cristo entre eles. Taylor lembrava aos leitores a ordem de Cristo de ir por todo o mundo com o Evangelho.
A resposta só poderia vir de alguém muito maior do que aquela imensa necessidade: Deus, com “seus recursos, propósitos, fidelidade, mandamentos e promessas”. “Toda autoridade me foi concedida… Portanto, ide…” – diz a Palavra de Deus (Mt 28.18-19). E lá estava um homem disposto a dar sua vida para obter de Deus o que fosse necessário para a esmagadora tarefa de levar o Evangelho a toda a China. Ele estava pedindo vinte e quatro missionários e vinte e quatro evangelistas nativos para plantar o Evangelho nas províncias não alcançadas da China.
Taylor sentiu-se direcionado pelo Senhor a aceitar quaisquer trabalhadores voluntários e competentes que se apresentassem, desde que conhecessem o Senhor, independentemente da denominação a que estivessem associados; e não importava se tinham ou não algum treinamento prévio. O requisito mínimo era que “eles fossem sábios para ganhar almas, homens e mulheres que conhecessem a Deus e pudessem deixar de lado as menores diferenças em prol do único e grande vínculo de união”. Deveriam ser pessoas que dependessem do Senhor para o suprimento de suas necessidades, pois Taylor não podia lhes prometer um salário. Deviam estar preparados para confiar em Deus para terem “força, graça, proteção, capacitação para as emergências, bem como o pão de cada dia”.
Era sabido que a China, especialmente no interior, poderia não estar aberta aos estrangeiros. Haveria muita privação e perigo. As condições de viagem e de vida eram primitivas. Mas havia a convicção de que, se os missionários fossem fiéis a Deus, Deus seria fiel a eles. O Avivamento de 1859 havia preparado muitos corações para responder a tal desafio. Havia uma nova devoção a Deus no coração de muitos; havia também um novo amor e zelo para ganhar almas. Havia os que estavam dispostos a ir. Havia os que estavam dispostos a orar. Havia os que estavam dispostos a contribuir.
Para conseguir trabalhadores, Taylor se propôs a obedecer a Mateus 9.38: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara”. Em vez de levantar recursos, ele se empenharia em fazer a obra e deixaria que Deus provesse os meios, em obediência a Mateus 6.33: “Buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas”. Ele se empenharia para aprofundar a vida espiritual dos cristãos com quem tivesse oportunidade de falar, pois assim eles teriam melhores condições para ouvir a Deus e obedecê-lo, independentemente do papel que teriam na evangelização da China e do mundo.
Rumo à China!
A viagem foi marcada para o mês de maio de 1866. Taylor e sua família embarcariam levando quantos missionários os recursos permitissem. Ao todo, um grupo foi composto de dezoito adultos e quatro crianças, todos prontos para partir. Maio chegou e o dinheiro para as passagens já havia sido provido. Entretanto, somente em 3 de maio conseguiram um navio com destino à China. Imediatamente as passagens foram reservadas e, em 26 de maio, o pequeno grupo zarpou. A viagem até Xangai levaria quatro meses.
A seriedade do pequeno grupo ficou evidente quando as aulas de chinês, ministradas por Taylor e sua esposa, começaram logo após o embarque. Os marinheiros, a princípio desconfiados por terem de transportar um navio cheio de missionários, viram seus corações atraídos por aquelas pessoas gentis, alegres e prestativas, que estavam sempre cantando. Antes mesmo de zarpar, orações em favor da tripulação que os levaria para a China haviam subido aos céus. Em menos de um mês, os zelosos ganhadores de almas viram seu primeiro convertido a Cristo. Um após outro, os membros da tripulação se entregaram a Cristo, e a alegria dos missionários foi indizível quando o tripulante mais obstinado se rendeu ao Senhor.
— Adaptado do livro Hudson Taylor And The China Inland Mission, The Growth Of A Work of God, autoria de Dr. Howard Taylor e esposa.
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