Arauto Ano 44 - nº 02 - Mai/Ago 2026 - VIDA E PODER DE RESSURREIÇÃO

Orgulho Espiritual Não Identificado

Jonathan Edwards (1703-1758)

A primeira e pior causa do erro que prevalece em nossos dias é o orgulho espiritual. É a principal porta pela qual o diabo entra no coração daqueles que são zelosos pelo avanço de Cristo e seu reino. É a principal passagem por onde a fumaça que sobe do abismo entra para obscurecer a mente e desviar o discernimento, e o principal meio pelo qual Satanás se apodera dos cristãos para impedir uma obra de Deus. Enquanto essa enfermidade não for curada, de nada adianta aplicar remédios para curar os outros males.

O orgulho é muito mais difícil de discernir do que qualquer outro tipo de corrupção porque, por natureza, o orgulho consiste em a pessoa ter um conceito elevado demais de si mesma. É de se admirar, então, que uma pessoa que tem um conceito elevado demais de si mesma não se dê conta disso? Ela pensa que a opinião que tem de si mesma é plenamente fundamentada e, portanto, justa. Como resultado, não há outra área em que o coração seja mais enganoso e inescrutável. Sua própria natureza é produzir autoconfiança e afastar qualquer suspeita negativa a seu próprio respeito.

O orgulho assume muitas formas e aparências e envolve o coração como as camadas de uma cebola — quando se retira uma camada, há outra por baixo. Portanto, precisamos exercer a maior vigilância possível sobre nosso coração com respeito a essa questão e clamar com toda a sinceridade ao grande examinador dos corações por sua ajuda. Quem confia no seu próprio coração é insensato.

Visto que o orgulho espiritual é secreto por sua própria natureza, ele não pode ser facilmente discernido por uma percepção imediata de si mesmo. A melhor maneira de identificá-lo é por seus frutos e efeitos, alguns dos quais mencionarei juntamente com os frutos opostos da humildade cristã.

A pessoa espiritualmente orgulhosa se julga cheia de luz e sente que não precisa de ajuda, ensino ou instrução. A pessoa humilde, por outro lado, é como uma criança pequena, que recebe prontamente a instrução. Ela é cautelosa no julgamento que faz de si mesma e sensível aos perigos de se desviar. Se lhe sugerem que está se desviando, mostra-se extremamente disposta a investigar a questão.

Pessoas orgulhosas tendem a falar dos pecados dos outros — da lamentável ilusão dos hipócritas, da frieza de alguns santos por guardarem amargura ou da oposição à santidade por parte de muitos crentes. A pura humildade cristã, porém, guarda silêncio sobre os pecados dos outros ou fala deles com tristeza e compaixão. A pessoa espiritualmente orgulhosa critica outros santos por sua falta de progresso na graça, enquanto o cristão humilde vê tanto mal em seu próprio coração; e se preocupa tanto com isso que não tende a se ocupar muito com o coração alheio. Ele se queixa principalmente de si mesmo e de sua própria frieza espiritual e considera que quase todos tenham mais amor e gratidão a Deus do que ele.

As pessoas espiritualmente orgulhosas costumam falar de quase tudo o que veem nos outros usando a linguagem mais dura e severa possível. Com frequência afirmam que a opinião, conduta ou frieza de outra pessoa vem do diabo ou do inferno. Comumente, suas críticas não são dirigidas apenas aos ímpios, mas também aos verdadeiros filhos de Deus e contra aqueles que lhes são superiores. Os humildes, porém, mesmo quando contemplam extraordinárias revelações da glória de Deus, sentem-se constrangidos diante de sua própria indignidade e pecaminosidade. Suas exortações aos demais cristãos são feitas de maneira amorosa e humilde, e tratam os outros com tanta humildade e mansidão quanto o próprio Cristo, que está infinitamente acima deles, os trataria.

O orgulho espiritual frequentemente leva as pessoas a buscarem uma aparência externa diferenciada, adotando uma maneira particular de falar, de se portar ou de se comportar. O cristão humilde, porém, embora permaneça firme em seu dever — seguindo sozinho o caminho do céu, ainda que todo o mundo o abandone — não encontra prazer em ser diferente pelo prazer de se destacar. Ele não procura colocar-se em evidência para ser visto e observado como alguém especial; pelo contrário, está disposto a fazer-se tudo para com todos, a ceder aos outros, a adaptar-se a eles e a agradá-los em tudo, exceto no pecado.

Pessoas orgulhosas ressentem-se fortemente com críticas e injúrias e tendem a falar delas frequentemente, com um tom de amargura ou desprezo. A humildade cristã, por outro lado, leva a pessoa a tornar-se mais semelhante ao seu bendito Senhor, que, quando insultado, não abriu a boca, mas, em silêncio, entregou-se àquele que julga retamente. Para o cristão humilde, quanto mais clamoroso e furioso o mundo se mostrar contra ele, mais silencioso e sereno ele será — a menos que esteja em seu lugar secreto de oração; ali, com certeza, ele não permanecerá em silêncio.

Outro padrão das pessoas espiritualmente orgulhosas é comportar-se de maneira que se tornem o centro da atenção. É natural que uma pessoa sob a influência do orgulho aceite todo o respeito que lhe é prestado. Se outros demonstram disposição para submeter-se a ela e ceder em deferência a ela, ela está aberta a isso e recebe esse tratamento livremente. Na verdade, passa a esperar esse tipo de tratamento e a formar uma opinião negativa daqueles que não lhe dão aquilo que sente que merece.

Aquele que está sob a influência do orgulho espiritual está mais inclinado a instruir os outros do que a lhes fazer perguntas. Tal pessoa naturalmente assume a postura de um mestre. O cristão eminentemente humilde pensa que precisa da ajuda de todos, enquanto o espiritualmente orgulhoso pensa que todos precisam de sua ajuda. A humildade cristã, movida pela compaixão da miséria alheia, suplica e roga; o orgulho espiritual, porém, ordena e adverte com autoridade.

Assim como o orgulho espiritual leva as pessoas a atribuírem muito a si mesmas, também as leva a tratar os outros com negligência. A pura humildade cristã, ao contrário, leva as pessoas a honrarem a todos. Às vezes, entrar em discussões sobre o cristianismo é inoportuno; ainda assim, devemos ter muito cuidado para não nos recusarmos a conversar com indivíduos carnais por considerá-los indignos de nossa atenção. Pelo contrário, devemos nos condescender aos homens carnais, assim como Cristo se abaixou ao nosso nível — dispondo-se a estar presente conosco em nossa incapacidade de aprender e em nossa insensatez.

Adaptado de “Some Thoughts concerning the Present Revival of Religion in New England” [Algumas reflexões sobre o atual avivamento da religião na Nova Inglaterra], em The Works of Jonathan Edwards. Publicado pela Banner of Truth Trust, Carlisle, Pensilvânia.

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