Arauto Ano 44 - nº 02 - Mai/Ago 2026 - VIDA E PODER DE RESSURREIÇÃO

Vida e Poder de Ressurreição

Samuel L. Brengle (1860–1936)

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma esperança viva, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pe 1.3).

A Ressurreição foi a perfeita confirmação e reivindicação, por parte de Deus, de que Jesus era o Cristo de Deus, seu Filho amado, em quem ele tinha perfeito prazer. No batismo de Jesus, o Espírito Santo havia descido sobre ele em forma de uma pomba, e uma voz do céu declarara: “Este é o meu Filho amado, de quem me agrado” (Mt 3.17). Mais tarde, porém, até mesmo João Batista começou a duvidar e enviou mensageiros para lhe perguntar: “Tu és aquele que deveria vir, ou devemos esperar outro?” (11.3). Mas a ressurreição foi a resposta completa de Deus a cada questionamento e removeu para sempre qualquer motivo para dúvidas. Como Paulo declara (em uma frase complexa, mas maravilhosa), o Jesus humilde, sofredor e crucificado “com poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos” (Rm 1.4).

Jesus Cristo foi a revelação de Deus. Nele, o Pai foi revelado. O coração de amor, de compaixão, de compreensão solidária e de infinito anseio do Pai, mais terno e constante que o de uma mãe, se fez conhecer em Jesus. Nele também se manifestaram o repúdio do Pai pelo pecado, sua santidade, sua imaculada pureza, sua justiça perfeita e inabalável e sua aversão a toda injustiça.

Jesus veio ao mundo para revelar o Pai e fazer a vontade do Pai. Ele também veio para salvar o homem perdido, para salvá-lo de seus pecados e de si mesmo; de sua natureza degenerada, de sua corrupção, de sua inclinação para o mal, de seu orgulho e concupiscência, e do engano de seu coração. Ele veio para levar o homem de volta para Deus, para colocá-lo em perfeita sintonia com ele – nos afetos, nas afinidades, na vontade, na natureza. Ele veio para nos tornar novamente filhos santos, bem-ajustados, leais e livres de temor. E a Ressurreição foi a pedra final no alicerce eterno sobre o qual essa obra seria construída.

Um fundamento para a fé

Somos salvos pela fé. A fé nos liga a Deus. À medida que confiamos nele, ele pode agir em nós e por nós; mas quando duvidamos, frustramos sua boa vontade para conosco e impedimos que seu amor cumpra todos os bondosos propósitos que tem para nós. Precisamos confiar nele, ou ele não poderá nos salvar. Ora, Jesus estava o tempo todo empenhado em estabelecer a fé nos corações de seus discípulos. Ele operou seus milagres e proferiu suas maravilhosas palavras para que pudessem crer; ainda assim eles voltavam a duvidar. Cansado e exausto, certa noite ele adormeceu no barco em que estavam. Uma tempestade desabou sobre eles e, em pânico, acordaram o Mestre, dizendo: “Mestre, não te importa que pereçamos?” Ele se levantou, acalmou a tempestade e perguntou calmamente: “Ainda não tendes fé?” (Mc 4.38, 40). Muitas e muitas vezes Jesus teve de lhes perguntar por que duvidavam.

Pouco antes de sua crucificação, Jesus lhes disse claramente que tinha vindo do Pai e que estava voltando para ele. Com um vislumbre fugaz de discernimento e num ímpeto de entusiasmo, eles exclamaram: “Agora falas abertamente… Agora reconhecemos… Por isso cremos que vieste de Deus” (Jo 16.29-30). Mas Jesus os conhecia melhor do que eles a si mesmos; ele sabia que o fundamento que estava construindo para a fé e a esperança de seus discípulos ainda não estava completo. Sabia quão fraca e vacilante era a fé deles, e respondeu calmamente: “Credes agora? Está próxima a hora, e já chegou, em que sereis dispersos cada um para o seu lado e me deixareis só. Mas eu não estou só, pois o Pai está comigo” (v. 31-32).

E, de fato, eles o deixaram só. Eles fugiram, e ele morreu sozinho. O alicerce daquela fé não fora inteiramente assentado somente por presenciarem a vida, os milagres ou as palavras de Jesus, mas foi perfeitamente finalizado com sua ressurreição dentre os mortos. Agora eles podiam, queriam e passaram a crer com uma –   

Fé que jamais recua,
Mesmo cercada por inimigos;
Que não estremece à beira
De angústias terrenas.

Agora eles tinham um fundamento para a fé sobre o qual podiam edificar a cidade de Deus, e sobre o qual podiam permanecer inabaláveis e exultantes, mesmo se os fundamentos da terra se dissolvessem.

O batismo do Espírito

Tudo o que lhes faltava agora era o batismo de Jesus, o batismo com o Espírito Santo e com fogo, que purificaria seus corações e os fortaleceria “com poder, mediante o seu Espírito, no homem interior” (Ef 3.16 ARA), para que Cristo habitasse neles pela fé. E foi exatamente o que receberam no dia de Pentecoste, depois de paciente espera e fervorosa oração.

Agora, com convicções firmes e cheios do Espírito de Cristo, tinham fé para enfrentar um mundo hostil e revolucioná-lo. Poderiam sair e derrubar todo império do mal, fazendo ruir todo trono alicerçado em injustiça e sustentado pela pompa de mero orgulho e poder terrenos. Com eles ia o todo-poderoso Espírito Santo. Todo o poder no céu e na terra pertencia a seu Mestre, e eles eram seus ministros, seus embaixadores; ele estava atrás deles, ao lado deles e dentro deles; seu Espírito seguia à frente. Eles falavam e operavam sob a autoridade do Senhor, e todos os seus infinitos recursos de poder, amor, paciência e longanimidade estavam à disposição da fé deles. Eles podiam pedir tudo que fosse necessário para a realização da tarefa sobre-humana que lhes fora confiada, e lhes seria concedido. Por si mesmos, eram insuficientes para a obra, mas sua suficiência vinha de Deus. Eles haveriam de conhecer “o poder da sua ressurreição” e se tornar participantes desse poder. O poder que havia ressuscitado o seu Mestre dentre os mortos era o mesmo poder que operava neles. Aleluia! Oh, que maravilha! Isso os inspirava. Fazia seu coração vibrar. Isso os tornava destemidos e invencíveis diante de todas as concentradas e escarnecedoras forças do pecado e do Inferno.

Fitavam seus inimigos nos olhos sem vacilar. Enfrentavam açoites, apedrejamentos e prisões sem esmorecer. Sofrer pela causa e pelo nome de seu amado Mestre era para eles motivo de alegria. Quando foram lançados na prisão, cantaram salmos durante a noite e o carcereiro se converteu. Eles se alegravam na tribulação. Gloriavam-se na aflição e angústia. Sorriam para a morte, pois sabiam que ela perdera seu aguilhão. Triunfavam sobre a sepultura, pois ela já havia sido despojada e privada da vitória. Percorreram terra e mar para anunciar ao mundo inteiro a maravilhosa história da Ressurreição; por onde passavam, o poder celestial os acompanhava; antigas superstições e os temores que assombravam a escura noite do pecado começavam a desaparecer.

A Vida e o Poder de Cristo em Nós

Por meio da fé aperfeiçoada pela ressurreição de Jesus, eles foram levados a esperar e a receber o batismo com o Espírito Santo, e Cristo foi revelado em seus corações. Desde então, para eles o viver era Cristo e o morrer era lucro (Fp 1.21). Ele era a videira, eles eram os ramos; e assim como o ramo recebe vida e poder da videira, da mesma forma a vida e o poder deles vinham de Cristo; e assim como a videira produz fruto por meio dos ramos, o fruto da vida e do espírito de Cristo foi produzido neles.

Nele havia um amor sacrificial e eterno; e esse mesmo amor foi reproduzido neles. Ah, como eles amavam! Eles amavam seus inimigos. Oravam por quem os perseguia. Enquanto era apedrejado até a morte, Estevão orou: “Senhor, não lhes atribuas este pecado” (At 7.60). E quando o amor de alguns de seus irmãos esfriou, Paulo escreveu: “De muito boa vontade gastarei o que tenho e me deixarei gastar pela vossa vida. Se vos amo mais intensamente, serei eu menos amado por vós?” (2 Co 12.15).

Alegria, a própria alegria de Jesus, foi aperfeiçoada neles. Ele lhes deixou sua alegria como herança. Louvado seja Deus! Quando morreu, ele era tão pobre que nada tinha para lhes deixar além de sua alegria. Mas que tesouro! (Jo 15.11).

Sim, ele também lhes deixou sua paz. “Deixo-vos a paz…” (Jo 14.27). Era a paz da Ressurreição, a paz de uma vida certa e eterna, sobre a qual a morte não tem poder. Mesmo que tempestades irrompessem ao redor deles, aquela paz permanente e profunda fluía totalmente serena, pois fluía do Pai para eles por meio de sua união com o Jesus ressurreto.

A longanimidade também foi aperfeiçoada neles. Eles já tinham a eternidade no coração. Já não eram criaturas apenas do tempo presente; eles podiam perfeitamente suportar com paciência os pobres escravos do pecado ao seu redor, assim como fizera o seu querido Salvador. Ah, quão paciente ele havia sido com eles! E, por amor dele e por seu Espírito que habitava neles, também se tornaram pacientes.

A mansidão, a bondade, a fé, a humildade de seu Senhor — todas essas virtudes foram reproduzidas neles e manifestadas em palavras e obras. Era Cristo vivendo sua própria vida neles.

Tudo é nosso!

Será que essa vida e esse poder da Ressurreição podem ser seus e meus? Sim, são para todos; são para você e para mim. São para cada ramo vivo, grande ou pequeno, que esteja na Videira verdadeira. Você crê que ele ressuscitou dentre os mortos? Você crê que ele é o Cristo vivo? E confessa isso com alegria, com sua boca? Então, essa vida e esse poder de ressurreição e essa esperança inextinguível são seus, se você os desejar. “Porque, se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10.9). E é essa salvação na qual se encontram todos os imensos poderes, as esperanças imperecíveis e as transbordantes alegrias da vida de ressurreição, disponíveis para serem recebidos pela fé, exatamente como aquele que possui uma farta conta bancária retira dela a quantia de dinheiro de que necessita. E assim será conosco, segundo a nossa fé.

Nenhuma mente, humana ou angelical,
Jamais sonhara que o Filho de Deus,
Na cruel cruz do Calvário, morreria
Para nos salvar por seu precioso Sangue.
Ele morreu por rebeldes; agora vive
E reina por nós em resplandecente glória;
Seu precioso Sangue em paz ele pleiteia
Por nós, os recém-nascidos filhos da luz.

E tudo é nosso, pois nós somos de Cristo e Cristo, de Deus.

– Extraído de Resurrection Life And Power, Samuel L. Brengle.

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